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Pai

de Vicente Alves | Sexta, 14 de Março de 2008

Pai,
eu vim buscar as vinhas da ternura
nas tuas palavras
certo de que sabias
o mistério
e que teus braços
abrigavam a solução
dos murmúrios e das lamentações
dos pedintes.
Eu vim seguro
de que teu canto
nunca extinto
se aprofundara tanto
nos caminhos do amor
celebrado nos teus versos
que cedo saberias
desvendar-me as colunas cerradas
da revelação.
E foi.
Cheguei, confesso,
humilde advertido
das graves condições
incontestáveis
impostas aos pretendentes
ao noivado perpétuo
com a beleza.
Mas me iludi
tão logo, Pai,
te vi curvado e triste
ao peso das quimeras
que te curtiram a pele
e o coração

que entanto
te ficou menino.
Eu também, Pai,
mais triste do que tu
não quis entregar ao tempo
os olhos da ternura
e permanecer.
Mas não bastava ser triste:
era preciso
olhar a vida
além das aparências
para ver como fizeste.
Era preciso amar:
‒ e eu amo ‒
as frestas e as amplas solidões
era preciso buscar o encanto
na canção madura
e saciar
todo o sabor
das madrugadas insones
era preciso esquecer
‒ e eu não esqueci ‒
a origem e o fim
para poder achar
o paraíso.
Por isso, Pai,
eu me perdi
nas voltas da saudade
e não achei o mundo.
O que eu achei
no fundo das alturas
foi só o coração
ileso

marcado embora da virtude
que lhe entregou o amor.
Mas tão só
triste de si mesmo
não pode mais
destacar
da tua sábia idade
as criações e a fantasia
que se perderam
desfalecidas
nas dobras
de sua própria identidade.

(Para Vitto Santos e sua hoje
relida “Lua de Papel”)
(Versailles, 21/12/75)

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